A estratégia do Governo de São Paulo que colocou fim à Cracolândia, no centro da capital paulista, tem as Casas Terapêuticas como uma das ferramentas. O esvaziamento das chamadas Cenas Abertas de Uso completa um ano neste mês de maio. Os equipamentos da Secretaria de Desenvolvimento Social recebem pessoas com transtornos causados pelo uso de substâncias psicoativas e vivência em situação de rua, encaminhando os interessados para oportunidades socioeducativas de emprego e cuidados.
As Casas Terapêuticas foram criadas em 2023, destinadas ao acolhimento de pessoas com transtornos causados pelo uso de substâncias psicoativas e vivência em situação de rua. O serviço é estruturado em quatro fases, conforme a evolução do acolhido: Acolher, Despertar, Transformar e Caminhar.
Por meio de um processo faseado, o acolhido recebe apoio de uma equipe multidisciplinar, podendo permanecer no complexo de Casas Terapêuticas por até dois anos. O objetivo é garantir autonomia, com renda via inserção no mercado de trabalho, moradia, saúde e educação. Desde janeiro de 2023, foram 1.368 pessoas acolhidas.
Enquanto equipamentos como o Hub de Cuidado ao Crack e Outras Drogas, localizado no centro de São Paulo, atuam como uma porta de entrada para casos emergenciais, as Casas Terapêuticas são a “porta de saída”. Elas servem para que o dependente químico dê o passo final e adquira autonomia para não retornar à situação de rua e ao vício.
Vida nova
A Casa Terapêutica não tinha sido a primeira unidade que João Fernandes* passou para tratar da dependência química. “Eu não queria vir para cá, porque já passei por três internações. Mas, chegando aqui, me deparando com essa realidade, tem sido algo muito interessante na minha caminhada”, conta.
João voltou aos estudos, que foram abandonados na oitava série, graças ao trabalho da Casa Terapêutica. Um dos papéis dos profissionais é encaminhar o residente para oportunidades de estudo e emprego. Abandonado pelos pais logo na infância e longe das filhas, João viu na equipe da Casa Terapêutica uma rede de apoio importante para recomeçar a vida.
“Antes eu não conseguia me adaptar à sala de aula. Hoje estou conseguindo. Fazia mais de dez anos que eu não estudava”, relata João, que tem Matemática como sua matéria favorita: “Ela abre minha mente, aumenta minha autoestima quando vejo que sou capaz de resolver um exercício e chegar na resposta certa”.
Acolhimento integral
A iniciativa acolhe pessoas com transtornos por uso de substâncias psicoativas, vivência em situação de rua e com mais de 18 anos de idade. Atualmente, são 14 complexos instalados, cada um com quatro casas, entre os municípios da Grande São Paulo e do interior, totalizando 630 vagas.
“A Casa Terapêutica aparece quando essas pessoas realmente se cansam e querem mudar de vida, querem uma alternativa ao que vivenciam todos os dias na rua”, explica Cláudia Conde, coordenadora de um dos complexos de Casas Terapêuticas localizado na zona sul de São Paulo.
Segundo ela, o perfil de quem passa por lá é marcado por trajetórias prolongadas de vulnerabilidade. “São pessoas que estão há muitos anos em situação de rua, que perderam referências básicas, como rotina, autocuidado e até vínculos familiares. Aqui, muitas vezes, inserimos essas pessoas novamente na sociedade.”
Da cozinha a finanças
As Casas Terapêuticas de São Paulo oferecem atividades como atendimento psicológico e mentoria financeira. Até cozinhar e limpar a casa os acolhidos aprendem.
“Aqui eu tenho responsabilidade no dia a dia. Tenho que arcar com coisas. Antes eu não tinha nenhuma responsabilidade. Aqui eu consigo cumprir minhas demandas: acordar cedo, estudar, lidar com as pessoas. Não tem dinheiro que pague essa realidade que estou vivendo”, conta João.
A coordenadora da Casa explica que a superação dos acolhidos é o momento mais emocionante : “Foi a primeira vez que senti que realmente existia uma porta de saída. Eu já vi muitos casos de sucesso: pessoas que compraram terreno, apartamento, casaram. Não foi só um ou outro”.
Acesso ao atendimento
A entrada nas Casas Terapêuticas pode se dar via Hub de Cuidados, Centros de Apoio Psicossocial (Caps), pela rede de assistência social ou por outras unidades de saúde. João, por exemplo, tratava de um câncer quando lhe indicaram as Casas Terapêuticas
O Serviço atua de forma articulada com o sistema de saúde, com os Caps e Caps AD, além da assistência social e da educação. Após a conclusão das etapas do acolhimento, a pessoa continua sendo acompanhada pela equipe técnica para prevenir recaídas.
As unidades estão nos municípios de São Paulo, Guarulhos, Osasco e São José do Rio Preto. Há previsão de expansão para São Vicente, Marília, Santo André e Ribeirão Preto. O Governo de São Paulo já investiu mais de R$ 62,7 milhões nas Casas Terapêuticas.
Ações integradas
Pela primeira vez em quase três décadas, a chamada Cracolândia deixou de existir como problema estrutural no centro de São Paulo. A solução para o problema que parecia impossível de se resolver, ocorreu após um conjunto de ações intersetoriais, que combinou desmantelamento do ecossistema do crime organizado no território, requalificação urbana e a ampliação inédita dos serviços de saúde e assistência voltados a dependentes químicos.
Esse conjunto articulado de medidas foi decisivo para desmobilizar as cenas abertas de uso de drogas e esvaziar, em definitivo, o fluxo, que durante anos se deslocou entre as ruas Helvétia, Dino Bueno, Alameda Cleveland, Praça Princesa Isabel e Rua dos Protestantes; esta última foi totalmente desocupada em 10 de maio de 2025, simbolizando a extinção da Cracolândia. O resultado foi alcançado graças à ação conjunta do Governo do Estado e da Prefeitura, reunindo segurança, saúde, assistência social, zeladoria urbana e desenvolvimento econômico.
*nome fictício para preservar a identidade do residente

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